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O pedreiro Gilberto Antunes, 21 anos, saiu de casa de moto, no domingo, para pegar um filme e acabou no hospital. E apesar da fratura exposta na perna, do nariz quebrado e olhos roxos, ele se considera um sortudo por ter sobrevivido ao fim de semana mais violento no trânsito de Santa Catarina em 2010 e não ter entrado para a estatística de 18 mortes. Mas qual o motivo para tal carnificina, que já tirou a vida de 521 pessoas em SC este ano, até o último final de semana?

Especialistas apontam uma soma de fatores, quase todos aliados à imprudência dos motoristas. Gilberto diz que houve imprudência do outro motoqueiro envolvido no acidente. Segundo o pedreiro, ele trafegava por uma rua de Ingleses, em Florianópolis, quando bateu de frente em outra moto.

– O cara veio na contramão e nós batemos. Ainda considero que tive sorte, porque ele acabou morrendo. Mas nunca mais quero saber de moto – relatou.

O número recorde de mortes no último final de semana foi uma surpresa, já que a quantidade de vítimas vinha caindo este ano, na comparação com 2009.

Os dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Batalhão de Polícia Militar Rodoviária (BPMRv) apontam que o número de mortes caiu de janeiro a julho de 2010 em relação ao ano passado – 485 contra 469 (soma dos acidentes nas rodovias federais e estaduais). Mas o número total de acidentes e feridos aumentou (veja infográfico).

– Podemos dizer que 90% dos acidentes são causados por imprudência. Cada vez mais as pessoas estão com pressa, aumentam a velocidade de seus veículos e muitos estão embriagados ao volante – explicou o superintendente da PRF em Santa Catarina, Luiz Ademar Paes.

O chefe de operações do BPMRv, Marcelo Pontes, concorda com a avaliação. De acordo com o major, a maior parte de acidentes nas rodovias estaduais em 2009 foi em batidas laterais (33%), geradas, quase sempre, por ultrapassagens forçadas.

Próximas gerações podem mudar quadro

Para Pontes, só a médio e longo prazos a história vai mudar em Santa Catarina.

– Hoje temos o Programa Cidadão no Trânsito, com educação para as crianças. As próximas gerações podem mudar o cenário triste que temos atualmente – avaliou.

Roberto Bentes de Sá, Presidente do Movimento Nacional de Educação no Trânsito (Monatran) também acha que não há uma solução a curto prazo para reduzir os acidentes.

– É a velha história de sempre. E infelizmente não vemos solução no horizonte nesta loucura e carnificina que vivemos no trânsito. É uma poderosa bomba que estamos sentados em cima – disse.

Para o especialista, não há apenas uma explicação para o alto número de mortes. Passa pelo mau preparo dos motoristas, impunidade e falta de fiscalização.

– Enquanto não for tomada uma decisão política que priorize o trânsito, será difícil mudar a realidade. Nem o dinheiro das multas são usadas para campanhas de conscientização dos motoristas.

Sem estas mudanças, sobrevive quem pode, como o sortudo Gilberto.